Soltar Amarras - Carlos Cruchinho

Soltar Amarras

Naquele fim de tarde, longe do mar feroz, recordou aquela manhã salgada. No ar, a brisa cheirava a maresia matinal e sentia-se a quietude instalada na areia, fustigada pelas marés vivas de setembro. O vaivém das ondas penetrava entre as pedras caídas da arriba, limadas pelos ventos milenares sem piedade. As pedras lisas e sem arestas guardavam sob o seu peso as amarras multicolores desaguadas nesta língua de areia afunilada junto à foz. Cada uma diferente, em tamanho ou grossura, outrora manuseadas pelas mãos hábeis dos pescadores, no remendar das redes da faina

Agora sem préstimo algum, agarravam-se como lapas à pedraria alva, sem largar a sua base. 

Enforcaram-se para sempre naquelas pedras, entrelaçaram a sua vida como parasitas, urdidas nas pedras da praia vaza de vida. Aguardando um salvamento inglório, uma mão de criança para uma derradeira brincadeira, antes do esquecimento fatal neste recanto cheio de encanto. Um soltar de amarras...

Carlos Cruchinho